Lucinha entrou em casa e encontrou seu Jaques sentando a mesa. Tinha um semblante preocupado e seus olhos estavam inchados de tanto chorar. No copo lagoinha um restinho de café ao lado da garrafa térmica, sua fiel companheira. O cinzeiro denunciava a imensa quantidade de cigarros fumados.
_ O que está fazendo ai homem? Perguntou Lucinha preocupada ao ver aquela cena.
Imediatamente seu Jaques passou a mão no rosto molhado e disse com voz firme:
_ Nada não, não posso nem mais tomar café?
_ Pode, mas você está chorando!
_ Impressão sua, só estou aqui com meus pensamentos e meu cigarro.
_ Esse é o problema, está fumando demais esses dias.
_ Como quer que eu não fume? Minha filha naquela cama de hospital e eu aqui sem poder fazer nada!
_ Por isso mesmo, tem que se cuidar, para quando ela voltar. Quando ela acordar, vai precisar de nós! Falou Lucinha já com lágrimas nos olhos.
_ E se ela não voltar? Perguntou seu Jaques em tom rude.
_ Não fale isso, você é louco? Claro que ela vai voltar! Não quero mais falar com você, não posso deixar que você tire minhas forças! Tenho fé, ela é uma moça forte e vai agüentar.
Nesse momento Lucinha deu as costas ao marido e foi caminhando para o quarto de Luana, sentou na cama e disse em voz alta:
_ Meu senhor, ilumine minha filha, esteja perto dela e ajude na sua recuperação. Cuide também dessa família, estamos todos precisando do senhor!
Olhou para a cômoda de Luana e lá estava o diário, Não sabia mais se deveria ler aquelas folhas ou esperar a recuperação da filha para que pudessem ter uma conversa franca. No fundo tinha absoluta certeza que a filha tinha um caso com Victor, mas o que queria saber mesmo era que relação esse caso tinha com o acidente.
Pensou em conversar com o marido, mas naquele estado que ele se encontrava com certeza revelar essa situação constrangedora a ele poderia agravar mais ainda a situação.
Onde Luana estava com a cabeça? Na certa a cidade grande acabou com o juízo dela, lá deveria ser normal esse tipo de coisa, mas no interior, onde ainda se preza os bons costumes, isso era inaceitável.
Quando Luana foi estudar na Universidade Federal de Formosa Lucinha ficou muito preocupada, a filha nunca havia morado longe ainda mais sozinha.
Além de ter dado de presente o cursinho pré-vestibular a senhora Carmem se dispôs a apagar as despesas de Luana em Formosa, alugou um apartamento que ela dividia com outra estudante.
Lucinha ficou muito apreensiva quando foi com Luana e a patroa levar a mudança era um mundo muito diferente do que a filha estava acostumada. Ela mesma ficou encantada com tanto luxo, tinha medo que a filha se perdesse naquele ambiente que não era o seu.
O prédio onde Luana foi morar tinha 5 andares, porteiro 24 horas e circuito de câmera de segurança a entrada era toda de vidro, o chão em granito e os jardins eram muito bem cuidados com lindas e variadas flores. O apartamento era no quarto andar, tinha uma sala muito bem montada e os móveis eram modernos de cores claras. A suíte de Luana era ampla e bem decorada, tinha um banheiro espaçoso com banheira e um closet que ela nunca imaginou ter.
Apesar da humildade de Luana, a mãe via em seu olhar o encanto por aquele ambiente, era uma mudança radical de vida, ia cursar a faculdade e morar em um lugar tão bonito e luxuoso, para uma garota de classe baixa, era um verdadeiro sonho.
Por outro lado Lucinha estava feliz em ver a filha longe de Águas Claras os últimos meses antes do vestibular foram muito desgastantes como se não bastasse toda aquela rotina alucinante, ainda tinha o sofrimento evidente pelo término do namoro com Victor, a mãe preferia não se intrometer nesse assunto, mas via como tudo aquilo estava sendo difícil para Luana.
Enquanto Lucinha olhava para o diário sem saber se deveria ler, Lucas o filho mais velho entrou no quarto.
_ Oh mãe, está ai de novo?
_ Lembrando de tempo felizes!
_ Vai ficar tudo bem. Abraçou a mãe na tentativa de consolá-la.
_ Tenho fé meu filho!
_ Mãe, a Vanessa ligou aqui em casa, a senhora não estava, disse que hoje é o chá de panela dela, que queria cancelar, mas a festa já estava paga e todos convidados. Ela não conseguiu mudar a data.
_ Tudo bem, ela não tem culpa do que aconteceu, não pode se prejudicar.
_ Ela disse que faz questão que a senhora vá, falou que Luana estava mais empolgada que ela com a festa que não vai conseguir receber bem os convidados se não estivermos presente.
_ Ah Lucas, não tenho disposição para nada!
_ Mãe, faz um força, ela é a melhor amiga de Luana, estava chorando no telefone, vamos e não demoramos lá.
_Você tem razão, tive que chamar a mãe dela para tirá-la do hospital, passou dois dias sentada em um banco no corredor.
_ Vai ser às 19 horas, vou com a senhora, o pai já me disse que não vai de jeito nenhum
_ Deixa ele, está sofrendo demais, vamos eu e você.
_ Ok, eu levo à senhora.