sexta-feira, 25 de setembro de 2009

CAPÍTULO UM

Abriu os olhos e não reconheceu aquele lugar, tentou ter uma visão mais nítida e apurada, mas não conseguia virar a cabeça, tudo que via era um monte de aparelhos, um teto branco e uma luz muito forte, não sabia onde estava.

No prontuário o médico lia:
Luana Torres
27 anos
Acidente de carro
Data de entrada 24/11/2008

Hoje completaria 10 meses no CTI

Viu uma mulher andando dentro do quarto e quando ela se virou percebendo que Luana tentava se movimentar veio rapidamente em sua direção.
_ Você está bem? Não se movimente, fique calma vou chamar o Doutor.

Luana tentava se comunicar, mas sentia uma dor muito forte na garganta, tinha dificuldades para falar.

Logo entraram dois homens de roupas brancas no quarto, um ficou conversando na porta com a mulher e o outro veio próximo a cama.
_ Luana, como você está se sentindo? Fique calma, está tudo bem com você!

Luana sentia a cabeça zonza e sua voz estava muito fraca era como se não tivesse forças. Respirou e disse lentamente:
_ Onde estou?
_ Você sofreu um acidente de carro e está no hospital.
_ Cadê meus pais? Onde está minha família? Há quanto tempo estou aqui?
_Não faça força para falar, tente ficar bem calma. Já pedi que ligassem para sua casa, logo estarão aqui, mas agora você precisa descansar.

Luana estava muito fraca, fechou os olhos como se quisesse se recuperar do enorme esforço que estava fazendo para falar.

Sentia a cabeça rodando e na tentativa de entender como foi parar ali, ouviu um som ensurdecedor de uma buzina e viu uma luz muito forte que vinha em sua direção, de repente o som da buzina sumiu dando lugar a um barulho tão alto que parecia que o mundo estava acabando, naquele momento Luana apagou.

_Doutor já entramos em contato com a família, eles estão a caminho, são de Águas Claras e irão demorar algum tempo para chegar.
_Ok, estarei de plantão hoje, assim que chegarem os encaminhe até meu consultório. Aqui estão os exames que vou solicitar para a moça, providencie tudo.
_ Sim senhor, irei providenciar.
_ Qualquer novidade no quadro me comunique.
Lucinha desligou o telefone com as mãos e pernas trêmulas. A ligação que recebera era do hospital. As lágrimas desciam pelo rosto e ela não conseguia se controlar.

Seu Jaques entrou pela porta e ficou assustado vendo a mulher naquele estado.
_ O que aconteceu mulher? Luana piorou?
_ Não Jaques, Luana acordou! Estão nos chamando no hospital!
_ Oh meu Deus não acredito, minha filha!
_ Vamos arrumar as coisas rápido, pegar essa estrada o quanto antes.

Foram dez longos meses de espera angustiante, mês após mês na esperança da filha sair do coma, muitas vezes chegaram a perder as esperanças. Nunca mais se esqueceriam da noite de 24 de novembro.

Era uma noite calma, o tempo estava fresco e o clima era típico de cidade de interior, crianças brincando na rua, pessoas com cadeiras nas calçadas a fim de espantar o calor.

Naquela noite a filha havia arrumado as malas, as férias em Águas Claras estavam no fim e embora Lucinha tivesse insistido muito para Luana retornar a Formosa no outro dia pela manhã, ela estava completamente decidida a ir embora a noite.

_Mãe vou à casa de Vanessa me despedir dela e depois volto para buscar minhas malas.
_ Minha filha tem certeza que não quer ir amanhã de manhã?
_ Não mãe. Tenho que arrumar minhas coisas e ainda ir ao escritório amanhã à tarde. Vou lá e volto rápido.

Foi a última fez que Lucinha viu a filha bem, nessa noite esperou Luana retornar até as 22 horas, quando percebeu que já estava tarde pensou que a filha pudesse ter desistido de voltar para Formosa e resolvido ficar mais com a amiga, acabou adormecendo.

No dia seguinte sem noticias de Luana, recebeu um telefonema avisando de um grave acidente que aconteceu de madrugada na estrada que ia para Formosa, a placa era do carro da filha, mas não entendia até naquele momento porque Luana retornou tão tarde, sem as malas e sem ter ido até a casa da amiga se despedir. Aquela pergunta martelou durante todos esses meses na cabeça de Lucinha. O que teria acontecido com a filha?

Na cidade só se comentavam sobre o acidente, uns afirmavam que foi tentativa de suicídio, que ela teria jogado o carro em cima do outro de propósito, outros falavam de fatalidade, ouviu se até comentários sobre sabotagem no carro.

Lucinha e seu Jaques já estavam até acostumado com os cochichos por onde passavam. No começo ainda entravam em discussão com os mais abusados, mas depois acharam que o melhor remédio era ignorar as fofocas.

Certa vez entrando na farmácia onde Luana trabalhou quando era adolescente ouviu uma senhora dizer para uma moça:
_ Essa é a mãe daquela que te contei, a tal amante de homem casado que a mulher traída tentou matar, o caso do acidente do carro.

Dona Lucinha fingiu que não ouviu. Seu Jarbas ex patrão da filha tentava amenizar a situação:
_ Não se importe dona Lucinha o povo não sabe o que fala!
_ É duro Jarbas ouvirem falar mal da sua filha e nem poder defendê-la, ainda não sei o que aconteceu aquela noite.
_ Um dia vai tudo se esclarecer, disse Jarbas. Tentando consolar a mãe de Luana.

Ninguém tinha certeza do que motivou aquele acidente, a polícia disse que Luana poderia ter perdido o controle do carro e saído na contra mão colidindo com o veiculo que vinha em sentido contrário, mas na pericia do automóvel não encontraram nenhuma falha mecânica.

Infelizmente não houve nenhuma testemunha e o ocupante do outro veículo faleceu no local. Como o acidente aconteceu às 3 horas da manhã, a grande pergunta era o que Luana estava fazendo naquela estrada? Essa pergunta não tinha sido respondida até aquele momento.

Logo depois do acidente o ex namorado de Luana separou-se da esposa definitivamente e os comentários ficaram fora de controle. Só se ouvia falar que o acidente estava ligado ao fim daquele casamento e não agüentando a pressão de tantas fofocas, a esposa abandonada e supostamente traída deixou a cidade. Diziam que aquilo era o desfecho terrível de um triangulo amoroso, onde o papel de Luana era a amante.