Quando a família Torres retornou para Águas Claras, foram morar em uma casa modesta emprestada pela irmã de seu Jaques. A casa ficava localizada em um bairro da periferia chamado Caimã, era uma casa antiga que pertenceu aos pais de seu Jaques e foi herdada pela única irmã solteira. Estava fechada durante anos, mas para eles diante de todas as dificuldades foi como um grande presente.
Lucinha e seu Jaques tiveram muitas dificuldades para criar os filhos, depois que voltaram de Formosa seu Jaques não conseguiu mais emprego fixo, sustentava a família com bicos que fazia de pedreiro, a mãe continuou lavando e passando para fora.
Depois que os filhos cresceram e já não dependiam tanto dos seus cuidados Lucinha foi trabalhar na casa de família, foi quando conheceu a senhora Carmem. Dizia que ela era a melhor patroa desse mundo.
Lucinha fechou o diário da filha estava com medo do que iria ler nas próximas paginas e ficava buscando uma resposta para o porquê da filha não querer voltar para casa. Sabia que Luana adorava a cidade, pelo menos era o que ela dizia. Falava sempre com a mãe que só de pensar em Águas Claras já sentia o gosto de bolo de laranja quentinho que a mãe fazia, era o seu preferido.
Pensava em Luana naquele hospital, a filha tão bonita e esforçada naquela cama, cheia de aparelhos, estava com o rosto machucado, passava por sessões de fisioterapia para não atrofiar os membros imóveis. Começou a lembrar de quando ela era criança correndo pela rua e pensou como eram bons aqueles tempos. Passaram por tantos apertos financeiros, mas todos os filhos sempre tiveram saúde.
Luana era uma criança esperta e cheia de opinião, sempre teve um gênio muito forte. Na escola uma excelente aluna, se destacava em todas as matérias, mesmo sem material. Não tinha dinheiro para comprar os livros que eram dados pela patroa da mãe, a Senhora Carmem, uma excelente mulher que ajudou muito a família de Luana.
Lucinha não se cansava de agradecer a patroa por tudo que havia feito pela sua família em especial por Luana. A senhora Carmem que era uma pessoa muito influente na cidade conseguiu uma bolsa de estudos integral para Luana no Colégio Maestral, um dos melhores de Águas Claras, dona Lucinha não podia acreditar, a filha teria a oportunidade de ter estudo, coisa que ela e o marido não tiveram, ia ser alguém na vida.
O sonho de Luana desde pequena era ser advogada, Lucinha não se lembrava da filha mencionando alguma outra profissão, achava até engraçado uma criança tão pequena e decidida por uma profissão tão séria.
Enquanto as coleguinhas queriam ser modelo, cantora e atriz, Luana falava firme e decidida:
_ Eu vou ser advogada!
Quando Luana completou o ensino médio seus pais ficaram muito preocupados ao saber que a filha pretendia cursar a faculdade, para eles o segundo grau já era mais que uma vitória ainda mais com diploma de escola particular. Mas, quando Luana se formou tiveram outra surpresa, senhora Carmen lhe deu de presente o cursinho pré-vestibular.
Nesse quesito Lucinha não tinha uma vírgula para reclamar da filha, era uma menina muito estudiosa e batalhadora, enquanto fazia o cursinho arrumou um emprego de caixa na farmácia do Jarbas, trabalhava durante o dia e estudava a noite. Na primeira tentativa foi aprovada no vestibular para o curso de direito da Faculdade Federal de Formosa.
Fazendo aquela retrospectiva em sua cabeça, Lucinha buscava uma explicação de como aquela garota alegre e esperta foi chegar até aquela cama de hospital. Tiveram tanta sorte em encontrar a senhora Carmem. Não é toda moça de família pobre que tem a chance de se transformar em uma advogada com uma carreira tão promissora. Por conta do acidente a patroa de Lucinha estava arrasada gostava de Luana como se fosse sua filha.
Abriu o diário na folha seguinte:
Formosa, 2 de setembro de 2008
Conversei com minha querida amiga e segunda mãe hoje e acho que ela tem razão, não posso mais ficar nessa situação. Estou me sentindo um lixo, diante disso tudo. Assim as coisas ficam muito fáceis. Não suporto mais essa indecisão! Não entendo o objetivo disso tudo.
Imediatamente Lucinha entendeu que a senhora Carmem sabia o que estava acontecendo com Luana, só podia ser ela a pessoa que Luana se referia como segunda mãe. Mas, porque ela não disse nada no hospital? Conversaram por tanto tempo e ela não mencionou nenhum problema!
Continuou lendo em busca de alguma informação.
Dias sem ligar e agora me vem com essa história de doença! Não acredito no que ouvi até agora, chego a sentir náuseas. Preciso conversar ainda bem que fiz exames de rotina recentemente. Creio que estaremos juntos no fim de semana, não vejo a hora de mostrar esses papéis.
Lucinha não estava entendo absolutamente nada, resolveu ir até a casa da senhora Carmem, precisava de respostas. Então a filha estaria doente? Quem seria essa pessoa com quem Luana iria sem encontrar naquele fim de semana? Pegou a bolsa e saiu decidida a conversar com a patroa.