sábado, 26 de setembro de 2009

CAPÍTULO DOIS

Dona Lucinha desfez as malas da filha e começou a colocar as roupas no armário, ia colocando as peças nas gavetas e rezando, as lágrimas molhavam a face castigada por dias em claro no hospital.

Toda a família estava abalada com a situação de Luana, os médicos disseram que era impossível prever quando ela sairia do coma, teriam que esperar e rezar para que as condições não se agravassem.

Como Formosa tinha melhores condições de atendimento Luana foi levada para o hospital da cidade, a mãe se revezava com o marido e os outros dois filhos no hospital. Não queria que quando a filha acordasse não tivesse ninguém da família presente. Enquanto um dos membros da família ficava em Formosa os demais retornavam para Águas Claras, ela estava no CTI e não podia receber visitas.

Lucinha tirou todas as roupas da mala e no fundo encontrou um caderno. Abriu a primeira folha e leu em letras bem grandes: DIÁRIO.

Naquele momento Lucinha gelou, pensou imediatamente que naquelas folhas poderia encontrar a resposta que procurava.

Balançou a cabeça, como se quisesse dizer não para ela mesma e fechou o caderno. Colocou em cima da cômoda, sentia que aquela atitude violaria a privacidade da filha, em contra partida precisava saber o que aconteceu nos dias anteriores para que Luana estivesse às três horas da manhã naquela estrada, respirou fundo e abriu o pequeno caderno.

Formosa 01 setembro de 2008

Hoje acordei às 9 horas da manhã, novamente estava atrasada. Como estou cansada! No fundo sei que esses atrasos são resultantes das doze horas diárias de trabalho.

Estou ficando até tarde no escritório praticamente todos os dias e levando mais serviço para casa. Sinto que estou totalmente sobrecarregada, que meu corpo não está acompanhando esse ritmo alucinante, mas acho que o trabalho é uma boa terapia para mente.

Não tive tempo de tomar café, nem de dar atenção para Lady, minha gatinha companheira é incrível como a bichinha não se importa com toda minha correria matinal. Às vezes queria ter o seu ar tranqüilo, deitada no sofá, só se move quando percebe que sua refeição estava servida.

Encontrei com Valeska saindo da garagem, meu carro está na oficina e ela me deu uma carona, é incrível quando precisamos de um táxi, nunca aparece um livre. Por sorte a reunião que tinha marcada de manhã foi adiada por falta de um documento. Não quero transmitir uma imagem ruim no escritório, foi muito desgastante o processo seletivo e ficar nesse emprego é muito importante para meu aprendizado, para minha carreira.

Em uma semana saio de férias, realmente não posso adiar mais a minha ida até Águas Claras. Sei que vai ser muito difícil para mim, às vezes me pego arrumando problemas para resolver e vejo que invento pretextos para sempre está ocupada e nunca poder ir. Dessa vez é inadiável.

Lucinha ficou confusa naquele momento. E se perguntou em voz alta como se estivesse falando com outra pessoa que pudesse te dar uma resposta:

_ Porque ela não queria vir?

Desde que Luana resolveu fazer sua carreira em Formosa não havia tirado férias, quando cursava a faculdade visitava os pais pelo menos duas vezes ao ano, mas depois que formou e conseguiu a vaga no escritório eram dois anos trabalhando sem folga nesse tempo não voltou mais a cidade, só ia às festas de fim de ano e sempre retornava o mais rápido possível, usando o trabalho como argumento.

Luana nasceu em Formosa, porém foi criada em Águas Claras e considerava essa como sua cidade natal, nem se lembrava que era de Formosa, apenas quando tinha que apresentar o documento de identidade

Águas Claras era uma cidade pequena, com aproximadamente 30.000.00 habitantes, os pais de Luana eram naturais dessa pequena cidade, mas logo no inicio do casamento resolveram tentar a sorte em uma cidade maior, mais desenvolvida com boas oportunidades de emprego, foram morar na cidade vizinha.

Viveram em Formosa por cinco anos até o nascimento do último filho que era Luana, a caçula da família Torres.

Com três filhos e a inflação altíssima as coisas foram apertando e em meio a uma crise no setor da construção civil seu Jaques o chefe da família perdeu o emprego de mestre de obras.

Com a falta de emprego a família passou a contar apenas com a renda que dona Lucinha conseguia lavando e passando roupa para fora. Era muito pouco para sustentar toda família.

Resolveram esperar mais alguns meses na tentativa de se manterem naquela cidade, ainda tinham esperanças que as coisas iriam melhorar, mas chegou uma hora que a única saída era retornar para Águas Claras em busca da sobrevivência, lá pelo menos estava o restante da família, seu Jaques teria mais chances de arrumar um novo emprego e assim dar uma criação mais digna para os filhos.